Giro d'Italia: A Corrida Rosa que Nasceu de um Jornal Falido — Parte 1 de 3
O Giro d'Italia nasceu para salvar um jornal da falência e o primeiro campeão era pedreiro. Conheça as origens da corrida mais dramática do ciclismo mundial.


Publicado em 24 de abril de 2026 | Série: Grandes Voltas do Ciclismo
Antes de a gente entrar em qualquer conversa sobre etapas, pelotões e classificações, precisa existir uma história. E a do Giro d'Italia é uma daquelas que, se você contasse para alguém que não conhece ciclismo, a pessoa provavelmente diria: "isso parece roteiro de filme". Não é. É real, é italiana e é cor-de-rosa.
Nessa primeira parte da nossa série sobre a Corsa Rosa, vamos voltar às origens: como a corrida nasceu, por que ela quase não existiu, quais foram as interrupções ao longo do caminho e quem são os grandes nomes que marcaram a história. Nas próximas edições, mergulhamos nas montanhas, nas etapas mais loucas e no Giro 2025, que começa em maio.
2h53 da manhã. Milão. 13 de maio de 1909.
Dá para imaginar? São quase três da manhã, temperatura fria do norte da Itália, e 127 ciclistas se aglomeram na Piazzale Loreto esperando o sinal de largada. Não havia transmissão ao vivo, não havia câmeras, não havia nem sistema decente de cronometragem. O que tinha era uma estrada de terra, lanternas presas nas bicicletas e uma brutalidade de percurso que hoje seria impensável em qualquer prova profissional.
A primeira etapa do Giro d'Italia tinha 397 quilômetros. Só a primeira. Para ter uma ideia de distância, é mais do que ir de São Paulo a Curitiba pela BR-116.
O Giro nasceu como estratégia de marketing. A La Gazzetta dello Sport, jornal esportivo impresso em papel cor-de-rosa (isso vai ser importante daqui a pouco), estava em sérias dificuldades financeiras. Inspirada pelo que o jornal francês L'Auto havia feito ao criar o Tour de France em 1903, a Gazzetta decidiu criar uma grande corrida italiana para aumentar suas vendas. A ideia deu certo tão rápido que a circulação do jornal disparou já na primeira edição. A corrida salvou o jornal da falência.
O primeiro campeão era pedreiro
Luigi Ganna, o vencedor inaugural do Giro, era pedreiro de profissão. Morava em Induno Olona e percorria quase 100 quilômetros por dia só para ir e voltar do trabalho — de bicicleta, é claro. Quando ganhou a corrida, recebeu 5.325 liras de prêmio. Para ter noção: o diretor da corrida recebia 150 liras por mês. O último colocado do Giro recebia o dobro do chefe. Jogo de classe ali.
Naquela edição, o resultado era determinado por pontos, não por tempo acumulado — um formato que durou alguns anos antes de ser substituído pelo cronômetro. E uma das maiores curiosidades da história inicial: em 1912, a classificação geral foi disputada por equipes, não por indivíduos. Uma experiência que não durou e nunca mais foi repetida.
Guerras, interrupções e o retorno simbólico
Das mais de 100 edições do Giro, a corrida foi interrompida apenas duas vezes — e os motivos não poderiam ser mais sérios: as duas Guerras Mundiais.
A última edição antes da Primeira Guerra foi em 1914. O Giro voltou em 1919, e o retorno foi carregado de simbolismo. A primeira etapa levou o pelotão até Trieste e Trento — cidades que a Itália havia reconquistado dos austríacos. O Giro não era só uma corrida. Era uma mensagem política e cultural de reconstrução nacional.
A Segunda Guerra interrompeu novamente entre 1942 e 1945. Quando voltou em 1946, a Itália estava em ruínas, a economia devastada, e o povo precisava de motivos para acreditar em alguma coisa. O ciclismo foi um deles — e um certo Fausto Coppi estava prestes a se tornar o símbolo disso tudo.
A Maglia Rosa: uma ideia de 1931 com DNA de jornal
Durante os primeiros 22 anos do Giro, o líder da classificação geral pedalava sem nenhuma distinção visual. Misturado no pelotão como qualquer outro corredor. Foi só em 1931 que Armando Cougnet — um dos fundadores da corrida — teve a ideia de criar uma camisa especial para o líder.
A cor escolhida? Rosa. A mesma cor do papel em que a La Gazzetta dello Sport era impressa desde 1899.
Simples assim. A Maglia Rosa (camisa rosa) que hoje é um dos símbolos mais reconhecíveis do esporte tem uma origem completamente prosaica: a cor do papel de um jornal. E no entanto, ela carrega toda a mística de uma competição de mais de um século.
Os maiores vencedores da história
Três ciclistas compartilham o recorde absoluto de títulos no Giro: cinco vitórias cada um.
Alfredo Binda dominou a corrida no final dos anos 1920, vencendo em 1925, 1927, 1928, 1929 e 1933. Chegou a ser tão dominante que a organização pagou a ele para não participar da edição de 1930 — para que a corrida tivesse alguma graça competitiva. É literalmente o único caso registrado na história do ciclismo em que um campeão foi pago para ficar em casa.
Fausto Coppi é o nome que transcende o ciclismo na Itália. Seus títulos vieram em 1940, 1947, 1949, 1952 e 1953. Em 1949, ele fez algo que quase ninguém repete: venceu o Giro e o Tour de France no mesmo ano. Para o povo italiano no pós-guerra, Coppi não era apenas um atleta — era uma figura quase mitológica.
Eddy Merckx, o belga que alguns consideram o maior ciclista de todos os tempos, dominou o Giro nos anos 1970, com títulos em 1968, 1970, 1972, 1973 e 1974. Merckx era chamado de "O Canibal" — não por crueldade, mas porque devorava qualquer corrida que disputava.
Recordes que merecem atenção
Alguns números do Giro que vale guardar:
O recorde de vitórias em etapas pertence a Mario Cipollini, com 42 triunfos ao longo da carreira no Giro — seguido de perto por Binda, com 41.
O maior Rei da Montanha da história é Gino Bartali, com 7 camisas azuis conquistadas.
Os italianos dominam o palmarès histórico com 69 títulos — um domínio que vem sendo desafiado especialmente desde os anos 2000.
Em 2014, Nairo Quintana se tornou o primeiro sul-americano a vencer o Giro. Em 2019, o equatoriano Richard Carapaz repetiu o feito.
Em 2024, Tadej Pogačar fez o que ninguém conseguia desde Marco Pantani em 1998: venceu Giro e Tour no mesmo ano.
O troféu que tem todos os nomes
Uma última curiosidade para fechar bem: o troféu oficial do Giro d'Italia se chama Trofeo Senza Fine — literalmente, "Troféu Sem Fim". É uma espiral dourada onde estão gravados os nomes de todos os campeões da história. A forma espiral representa justamente a ideia de continuidade, de que a corrida segue, de que sempre haverá um próximo nome a ser inscrito.
É quase poético para uma corrida que começou às três da manhã em uma praça de Milão com ciclistas pedalando no escuro.
O que vem a seguir
Na Parte 2, vamos falar sobre as montanhas — os Alpes, os Dolomitas, os passes lendários como o Stelvio e o Mortirolo — e entender por que o Giro é considerado a Grande Volta mais imprevisível e mais dramática de todas. E na Parte 3, o foco vai ser o Giro 2026, que começa em 8 de maio com uma novidade histórica: pela primeira vez na história, a Grande Partida acontece na Bulgária, com três etapas saindo de Nesebăr, passando por Veliko Tarnovo e chegando à capital Sofia, antes de a corrida cruzar para a Itália. A edição promete um duelo de peso, com Jonas Vingegaard como grande favorito — de olho em se tornar o oitavo ciclista da história a vencer as três Grandes Voltas — e Richard Carapaz buscando voltar ao topo depois de ter chegado perto do título em 2025.
Fica de olho.
Fontes consultadas: ciclismopelomundo.com.br, Wikipedia (Giro d'Italia), esportelandia.com.br, semexe.com, Radioagência Nacional / Agência Brasil.
