O Ciclismo Feminino nos Últimos 10 Anos: Uma Revolução sobre Duas Rodas
Por décadas, elas pedalaram à margem. Salários baixos, provas menores, menos câmeras. Mas algo mudou — e mudou de verdade.
4/23/2026


Tem uma frase que circula muito entre quem acompanha ciclismo de perto: "quem não acompanhou o pelotão feminino nos últimos dez anos perdeu uma das melhores histórias do esporte." E olha, não é exagero. A transformação que aconteceu nesse período é de tirar o fôlego — tanto quanto uma subida ao Alpe d'Huez.
Vamos combinar: por muito tempo, o ciclismo feminino viveu nas margens. Provas mais curtas, menos cobertura, salários que davam vergonha de mencionar ao lado dos masculinos. Mas algo mudou. E mudou de verdade.
O dinheiro começou a aparecer (e isso importa muito)
Pode soar prosaico falar de salário num artigo sobre esporte, mas sem essa conversa não dá para entender a revolução. Em 2020, o salário mínimo numa equipa WorldTour feminina era de 15.000 euros. Em 2025, subiu para 31.768 euros. O orçamento médio das equipes também mais do que duplicou: de 2,35 milhões em 2022 para 4,67 milhões em 2025. Goride
Isso não é detalhe. Quando uma atleta pode se dedicar integralmente ao esporte — com estrutura, nutricionistas, preparadores físicos — o nível técnico sobe junto. E subiu.
Hoje contamos com 15 equipes femininas no World Tour e muitas equipes continentais que apostam fortemente na formação de jovens talentos. Eltin Cycling Dez anos atrás, esse cenário era ficção científica.
As Grandes Voltas: a virada estrutural mais importante
Se tivéssemos que apontar um evento único que simboliza essa transformação toda, seria fácil: o retorno do Tour de France Femmes, em 2022. Mas a história é um pouco maior do que isso.
Nos últimos anos, destacam-se marcos importantes como o retorno do Tour de France feminino em 2022, a inclusão de uma semana com grandes etapas na Volta a Espanha de 2023 para o pelotão feminino, e desde 2021 podemos desfrutar da Paris-Roubaix feminina, um dos percursos mais tradicionais da história do ciclismo. Eltin Cycling
Hoje o calendário feminino conta com três Grandes Voltas oficiais: a La Vuelta Femenina (maio), o Giro d'Italia Women (julho) e o Tour de France Femmes (final de julho). As três são as maiores provas por etapas do Women's WorldTour. Cyclingnews
O Tour de France Femmes cresceu de forma impressionante. Em 2025, a prova foi expandida para nove etapas, partindo da Bretanha e terminando nos Alpes, com 1.168 km e 17.240 metros de ganho de altitude. Wikipedia Para ter noção do impacto: na França, a etapa final foi assistida por um pico de 7,7 milhões de telespectadores — recorde absoluto da prova — e a audiência média da semana foi cerca de 500 mil maior do que a edição de 2024. Wikipedia
A Vuelta Femenina também viveu sua própria evolução. Em 2022, foi anunciado que a prova seria ampliada para 7 dias e rebatizada como La Vuelta Femenina, tornando-se oficialmente o terceiro Grand Tour feminino. Wikipedia Antes disso, era criticada até pelas próprias atletas: Annemiek van Vleuten, tricampeã do Giro Donne e vencedora do Tour de France Femmes 2022, chegou a dizer publicamente que a Vuelta ainda não estava pronta para se chamar de Grand Tour. Wikipedia Mas melhorou.
As rainhas que fizeram essa história
Falar de evolução sem falar das atletas é como falar de montanha sem falar de subida. Vamos às personagens centrais dessa fase.
Marianne Vos é, sem discussão, o nome mais influente do ciclismo feminino moderno. A holandesa acumula um palmarés absurdo: três títulos gerais no Giro d'Italia, cinco títulos na Flèche Wallonne, Copa do Mundo Feminina cinco vezes, três títulos mundiais de estrada, sete no ciclocross e ouro olímpico na estrada. Digital Cycling E ainda está competindo em alto nível. Não à toa, ganhou o mesmo apelido de Eddy Merckx: "O Canibal".
Annemiek van Vleuten foi a atleta que dominou a fase mais recente do ciclismo feminino antes de se aposentar em 2023. Ela se tornou a primeira mulher a vencer as três grandes voltas femininas — La Vuelta Femenina, Tour de France Femmes e Giro Donne. Wikipedia Um feito histórico que resume sua grandeza.
Lizzie Deignan (antes Armitstead) é outro nome que merece reverência. Ela venceu quatro dos cinco monumentos, ficando apenas a Milano-Sanremo fora do seu palmarés, além de ser campeã mundial em 2015. falso plano Sua trajetória também tem um capítulo importante fora das corridas: em 2018, com 29 anos, decidiu ser mãe. Com seis meses de gravidez, assinou contrato com a Trek — e a equipe não hesitou. falso plano Esse episódio virou símbolo de que o esporte estava mudando sua relação com as atletas como mulheres inteiras, não só como máquinas de performance.
Demi Vollering é a grande dominante do momento. Vencedora do Tour de France Femmes em 2023, disputou de forma dramática em 2024, perdendo por apenas quatro segundos para a polonesa Katarzyna Niewiadoma — numa das finais mais tensas da história do esporte. Em entrevista em janeiro de 2025, Vollering revelou que aquela etapa havia sido a mais difícil de sua carreira, admitindo ter chegado a um ponto de colapso emocional. Wikipedia
Elisa Longo Borghini é a italiana que representa com maestria a tradição ciclística de seu país. Em 2024, tornou-se a primeira italiana a vencer o Giro d'Italia Women em 16 anos — e repetiu o feito em 2025. Wikipedia
E para fechar com chave de ouro: Pauline Ferrand-Prévot, campeã mundial multidisciplinar, voltou ao pelotão profissional em 2025, venceu a Paris-Roubaix Femmes e, no Tour de France Femmes daquele ano, sagrou-se campeã diante do público francês. Wikipedia
Os Monumentos também abriram as portas
Uma das maiores injustiças históricas do ciclismo estava nas chamadas "clássicas monumentos" — as provas mais antigas e prestigiadas do esporte. Durante décadas, elas foram exclusividade masculina. Isso começou a mudar.
A Paris-Roubaix estreou sua edição feminina em 2021, no aniversário de 125 anos da prova. Aliança Bike A primeira vencedora entrou para a história: foi Lizzie Deignan, em uma fuga solitária memorável. Ela atacou desde o primeiro setor de paralelepípedos e manteve uma fuga solo de 80 km até a chegada. falso plano
Hoje as mulheres correm a Milano-Sanremo, o Tour de Flandres, a Liège-Bastogne-Liège, a Amstel Gold Race e a Flèche Wallonne. As Ardenas, em particular, tornaram-se um território feminino apaixonante, com batalhas épicas ano após ano.
O que vem pela frente
Segundo Kate Veronneau, diretora de ciclismo feminino da Zwift, "a visibilidade muda tudo". A criação do Tour de France Femmes impulsionou o investimento, atraiu patrocinadores e inspirou uma nova geração a sonhar mais alto. Goride
O nível técnico-tático está subindo com velocidade impressionante. Nos últimos dez anos, destaca-se a introdução dos comboios de lançamento para os velocistas — inovação rapidamente adotada pelas mulheres, mudando completamente a dinâmica das chegadas em grupo. falso plano
O calendário está mais rico, os salários mais dignos, a cobertura midiática crescendo a cada temporada. O ciclismo feminino não está mais pedindo licença para existir. Está exigindo o espaço que sempre mereceu — e está ganhando.
Fontes consultadas: Eltin Cycling, GoRide.pt, Falso Plano (pt), Cyclingnews, Cycling Weekly, Wikipedia (Tour de France Femmes, La Vuelta Femenina, Giro d'Italia Women), The Conversation.
